Romance - Amor, eterno amor.


Eu tinha quinze anos quando conheci a Berna. Levava uma infância normal recheada de brincadeiras da época como salve a latinha, pimbarra, pega-pega, carrinhos de lata e peão. Dividia o tempo entre estudar, brincar e afazeres de adulto, tudo administrado por Dona Mira, minha mãe. As coisas seguiam dentro da normalidade naquele ano até a aparição daquela menina magra que viera do interior do Estado trazida pela família. Como de costume na época, os vizinhos se reuniram e foram saudar os recém chegados e ajudá-los no que fosse preciso. Morávamos num bairro pobre e tradicional com uma vizinhança tranquila e abençoada, povo bom e ordeiro, quase uma grande família. As construções não exibiam luxo e os moradores não tinham pompa, mas sobrava afeto e carinho entre todos e o que predominava era o respeito recíproco. Logo Berna e eu nos tornamos amigos inseparáveis e de tão inseparáveis que éramos não demorou para que todos percebessem o encantamento no ar. Bastou para que mamãe começasse a me dar pitacos. Não sei bem quando começou, mas a verdade é que eu e Berna estávamos envolvidos numa atmosfera de romance. Não um romance dos que vemos hoje, mas um romance daqueles.Eu e aquela magrinha linda estávamos provando algo que nunca provamos, uma magia capaz de nos fazer chorar quando distantes e rir enquanto juntos. Claro que não entendíamos o que acontecia, mas isso não tinha a menor importância desde que não mudasse. O problema é que nestas histórias o amor une, mas sempre há quem queira separar e havia! Ao perceber que havia um brilho especial nos olhos da filha e desconfiar de que ela estivesse apaixonada, a mãe de Berna revelou a todos um surpreendente segredo negro que até então permanecera oculto: O seu lado racista. Berna, uma linda garota branca e de olhos azuis jamais poderia namorar um negro, assim pensava a sua mãe ariana. Ninguém conseguia acreditar, mas a mulher era um puro cálice de preconceito. Uma filha namorando um negro era demais para uma patriarca de família ariana e ela então proibiu a filha de encontrar-se comigo. A questão é que esta equação proibir + adolescente + namoro nunca deu certo e desta vez não foi diferente, Berna e eu sempre dávamos um jeitinho de nos encontrarmos para "namorar". Nosso namoro consistia em alguns toques, promessas e muito choro. Lembro-me que num destes encontros paramos e ficamos nos olhando por um momento, depois eu trêmulo segurei suas mãos, olhei-a nos olhinhos azuis e e chorei enquanto dizia:
- Berna, eu te amo e nada vai nos separar, eu prometo.
Ela apertou as minhas mãos e respondeu:
- Eu também te amo. Prometo...
Trocamos um beijo com muita ternura. Não havia língua na língua, apenas o encontro dos lábios e o sabor salgado das lágrimas que escorriam na boca. Num abraço nos despedimos.
Um dia percebi a Berna muito triste. Preocupado tentei em vão saber o que aconteceu, pois a mãe dela resolvera literalmente montar guarda. Tudo estava muito estranho e meu coração me dizia que algo terrível iria acontecer. Pedi a uma amiga nossa que descobrisse e quando ela me contou eu senti meu corpo inteiro gelar. Meu coração disparou e parecia querer saltar boca afora. Fiquei tão triste com a notícia que mamãe já pensava em levar-me ao médico. Tudo perdeu a importância para mim: comer, brincar, estudar, dormir. A mãe de Berna havia resolvido mandá-la de volta para o interior e assim acabar nosso namoro.
Eu estava trancado no quarto quando ouvi uma voz conhecida me chamando. Era a Berna, não sei como conseguiu, mas era ela sim! Corri á janela e pulei para encontrá-la. Ela feliz me recebeu com um abraço e nós ficamos ali, calados, abraçados, quietinhos, chorando. Sabíamos que não havia o que ser feito e que aquele encontro era uma despedida. E foi. Nosso último beijo pareceu interminável e através dele percebemos que estávamos nos despedindo um do outro, mas não do amor que sentíamos.

Esta obra é baseada em fatos reais.
Texto de Tony Casanova - Direitos Autorais reservados ao autor.
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