Crônica: As misérias de compadre Tota.


Uma certa feita, numa destas ocasiões raras em que encontrava o compadre Tota, resolvi perguntar-lhe sobre como andava o seu casório com a comadre Joana. Eita que o homem respondeu-me numa tristeza que fez dó: - "Uma misera compadre! Oxente Tota, meu velho, como assim, não foi uma festança danada, num casório pra lá de inesquecível?" - "É, de ser foi, compadre. Foi a festança mais linda da região mermo. Lembro como se fosse ainda hoje: A Joaninha vestida de branco, naquele vestidão lindo de dar gosto. Vixe compadre, sou cabra macho, mas confesso que quase entreguei os pontos e chorei, de tão linda que ela tava!" - "Então homem de deus, se foi assim tão lindo, tudo como manda o figurino, os pretos nos branco, que diacho tu ainda tá reclamando?" - "Pois é compadre Tonho, as coisa muda sabe. Depois que passamo a conviver junto tudo mudou. Ocê se alembra da Joaninha como era? Moça tímida, calada, oxente, não podia ver uma canela de fora que morria de vergonha! Palavrão então, nem se podia pensar pertinho dela. Nosso namoro foi na moda dos tempo bom, sem descaramentos, apenas pegava na mão, olhava nos olhos que e ela logo, logo ficava vermelhinha, vermelhinha." - "Verdade compadre Tota, a Joana sempre foi uma mulher direita, moça decente, pra casar mermo. Destas que nem nasce mais hoje em dia. Mas que diacho aconteceu homem?" - "Hoje compadre, sinto até vergonha de falar, mas Joaninha mudou foi muito. - Mas mudou como Tota, como assim compadre? - Compadre, eu vou falar, mas o senhor me prometa duas coisas, promete?" - "Prometo sim compadre, amizade de anos, somos até compadres de fogueira, claro que prometo, o que é?" - "Tonho, óia, voce é meu compadre, veja bem, eu vou falar, mas voce promete não rir e nem contar nadica de nada pra ninguém, entendido bem?" - "Claro compadre, vejam voce, se vou rir da tua miséria, nunquinha mesmo, conta logo homem." - "Pois bem, Joaninha que antes nem se mexia para nós namorar, agora vive tirando meleca das ventas. Anda pelo mundo sem caçola, xinga cada nome brabo dentro de casa, ela que era calminha agora bate que só nos meninos, parece querer tirar o couro dos coitados. Depois de uns ano ela agora sente umas dor de cabeça estranha e me larga sozinho na cama e não faz nadica de nada do bem bom". Nesta altura eu já estava de cara virada pro outro lado, olhos cheios de lágrimas de tanto riso contido pro compadre não ver. E ele, sério, contando as misérias da sua vida de casado. - "E tem mais compadre, ela peida debaixo do lençol e é um peido a cada meia-hora. Aguento mais não compadre, ela tá me matando". Ai eu não me aguentei, ri de rolar pelo chão e quando estava rolando o compadre Tota pode ver meus dedinhos cruzados na mão direita. Nunca fui bom de guardar segredo.

Por Tony Casanova - Direitos Autorais reservados ao autor.

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