Conto - Minha primeira vez com uma tímida.


Eu tinha 36 anos quando conheci Ana. Ela apesar de linda e muito simpática,era também tímida, pouco falante. Possuía um sorriso bonito, uma expressão jovial e uma pele clara que contrastava com seus olhos castanhos mel. Trabalhávamos juntos numa repartição pública, num convívio normal, sem muitas aproximações senão as do trabalho. Um dia me surpreendi quando a encontrei folheando a minha que ficara sob o bureau no dia anterior. Nela eu escrevia meus contos e poesias sempre que possível e quando a inspiração me visitava. Ao ser surpreendida ela envergonhou-se e ficou muito nervosa, quase saindo ás pressas da sala.
- Gostou? Perguntei-lhe.
- Sim - Respondeu-me a moça ruborizada.
- Pode levar se quiser, depois voce me devolve.
- Não, voce pode precisar! Perdoe-me por bisbilhotar suas coisas, mas a página estava aberta e eu resolvi ler, me desculpe.
- Calma Ana, não precisa desculpar-se, mas eu só te perdoarei se prometer que vai continuar a ler meus textos. Combinado?
- Tudo bem, mas me desculpe tá.
- Voce não fez nada de mal, relaxe.
Assim se deu nossa aproximação. Ela ainda tímida passou a ler frequentemente meus textos, mas nunca lia na minha frente. Levava a agenda para casa e devolvia no dia seguinte. Quando em vez eu a cutucava perguntando:
- Voce ainda não me disse o que achou dos textos.
- Depois eu digo! - Respondia ela.
Confesso que nos meus 36 anos de idade jamais havia encontrado uma moça de 26 anos que tivesse tão evidente timidez. Ela era sorridente e falava muito bem articulado, mas dependendo do assunto travava e ficava vermelha. Isso exercia em mim um fascínio enorme. Para provocá-la eu as vezes ficava a olhá-la no rosto e quando meus olhos encontravam os dela eu sorria, achando lindo vê-la ruborizada.
- Para Tony, tá me deixando sem jeito!
- Eu confesso que nem sei qual de voces é a mais linda. A branquinha ou a vermelha. - Ela sorria e ficava ainda mais encantadora assim. Tem mulheres que fazem de tudo para conquistar, para seduzir. Ana não precisava fazer nada!
Um dia lhe fiz um convite para que fôssemos á praça que ficava em frente a repartição. Ela concordou. A praça possuía belas palmeiras centenárias além das excelente arborização. Localizava-se frente ao mar onde podia-se ver uma pequena ponte onde aportou a embarcação que trouxera D Pedro II a Aracajú em 1860. Havia uma sintonia entre as pessoas falando, o cantarolar dos passarinhos e a brisa fresquinha do mar. Um dos mais lindos cartões postais de Sergipe.
Apesar de termos descido ao encontro juntos, eu e Ana agora tomados pela mesma timidez, trocamos um cumprimento curto ao chegarmos.
- Oi - Disse eu nervoso.
- Oi - Respondeu-me
Sentamos e após alguns intermináveis minutos de silêncio eu quebrei o gelo:
- E ai Ana, voce ainda não me disse o que achou dos meus textos.
- São lindos.
- Obrigado. Um dia gostaria de fazer textos tão lindos quanto voce.
- Para Tony! - Disse isso e envergonhada baixou a cabeça tentando esconder o rostinho ruborizado.
Coloquei minha mão suavemente em seu queixo, ergui seu rosto de mansinho e beijei-a. Ela abraçou-me e deitou a cabeça em meu peito, quietinha.
Este é o sim dos tímidos que não sabem seduzir e por não sabê-lo, seduzem. Que não sabem conquistar e por não sabê-lo, conquistam. Eu que agora já não estava sozinho, tinha uma tímida namorada. A tímida mais linda do mundo, motivo maior do meu orgulho e admiração.

Texto de Tony Casanova - Direitos Autorais e de Copyright reservados ao autor.
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