A menininha. [Tony Casanova]


A idade lhe chegara, mas ela nunca a respeitou. Levava a vida naquela teimosia infante, resignada a não aceitar os percalços que iam surgindo. Queria ser feliz e sabia que podia, mas nem sempre era, apesar dos sorrisos fartos que lhe coloriam as faces. Sempre estava a brincar com os fatos sem nunca abandonar seu lado sério. Acreditava-se presa em uma infância mal vivida, talvez uma adolescência pouco explorada onde a vida lhe castigou com diversos tapas na face. Aprendera ás duras penas que deveria defender-se, lutar e conquistar seu lugar à sombra, porque o sol lhe castigava as costas desde que começou sua saga sofrida de mulher.
Mesmo enumerando todos os sofrimentos que sofrera, considerava-se feliz, vitoriosa por suas conquistas. Orgulhava-se por ter tido a coragem de ir a luta e vencido com louvor grande parte dos problemas que lhe haviam afligido. Não é exagero dizer que seu comportamento na vida fora o de uma capoeirista diante dos obstáculos, uma bailarina clássica executando uma performance enquanto os problemas tentavam lhe derrubar. Já temeu, assustou-se, derramou muitas lágrimas, mas não conhecera a derrota. Erguia-se teimosamente dos escombros e voltava a lutar com um sorriso, uma maestria impressionante. Sua ginga lhe ajudava a continuar sorrindo e brincando com as torturas como se fossem as coisas mais naturais do mundo.
Não é possível dizer que trata-se de uma super mulher, mas uma mulher moldada pelos sofrimentos, podada de muitas alegrias, mas riquíssima em esperanças, força e coragem para lutar. Insistiu e por isso venceu, aprendeu a maquiar as feridas, as cicatrizes profundas deixadas pelos açoites cruéis. Sabe que não é única e que outras guerreiras também empunham a bandeira tremulante da vitória assim como ela hoje o faz. Sabe o quanto sofrera, mas não dá para perder tempo contabilizando baixas, a luta continua e ela permanece na ativa, capaz como sempre, de guerrear e vencer qualquer batalha que possa surgir.
Para todos que imaginam que a vida resume-se apenas ás batalhas, enganam-se. Ela também tivera momentos de extrema alegria, momentos de sorrisos fartos, dignos de serem guardados no seu baú secreto de intimidades. Conheceu o amor, aprendeu a valorizar objetivos, a traçar planos, a elaborar seus passos. Estava aprimorando suas estratégias de guerrilha, melhorando suas estruturas, adquirindo maiores conhecimentos de campo. A cada ano fortalecia-se mais e mais. A cada conquista um novo desejo de permanecer na luta, de sonhar com a vitória e quando o choro lhe chegava, seguia para pertinho do espelho e diante dos olhos carregados de lágrimas, dizia para si mesma:
Tudo bem, eu sou apenas uma menininha frágil, corpo de uma mulher, na luta de uma mulher, mas apenas uma menininha que ainda pode chorar.


Texto do Escritor Brasileiro Tony Casanova – Direitos Autorais Reservados ao autor. Proibida a cópia, colagem, reprodução de qualquer espécie ou divulgação em qualquer meio, do todo ou parte dele, sem autorização expressa do autor sob pena de infração ás Leis Brasileiras de Proteção aos Direitos Autorais.
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