Desabafo de um brasileiro. [Tony Casanova]


Querido Leitor,

Segue esta pobre missiva, testemunha da inerte de toda minha agonia, onde em mal traçadas linhas vos escrevo em indignado desabafo, toda dor que agora sinto a esmagar-me o peito ferido. Não creio porém, que sejam estas linhas malditas, a solução para o meu pranto, tampouco a saída do que agora me apoquenta, mas ponho nelas o alívio daquilo que me inquieta.
Custa-me crer, que tendo eu lido em pomposos livros de História, várias menções que citam a Abolição da Escravatura, cuja nobre descrita como Princesa Isabel, libertara a 13 de Maio de 1822, os negros que até então viviam como animais, como ainda hoje vejo negros tratados no açoite das línguas, humilhados, ofendidos e perseguidos como cães leprosos, mesmo após terem ajudado a construir esta Nação. Lamento deveras o fato da Princesa Isabel já estar entre nós e mais ainda que nos falte em nossos dias, autoridades com nobreza suficiente para dar um basta nos açoites sofridos abertamente pelos negros. Não é o progresso ou a tecnologia que vejo, fato me assusta, não meus caros, disto eu tenho orgulho, mas envergonha-me o regresso de alguns patrícios, cujos manifestos rasgados de ódio e preconceito, tem posto à lama, todo crédito da abolição.
Sei que é vão meu desabafo, mas ele me serve de conforto para que se aquiete a minha alma. Recordo a choro farto, os tempos em que prisões detinham malfeitores e não pais. Me incomoda saber que porventura o País que prende o pai, não prende o ladrão, que a vistosos trajes alardeia discursos à imprensa após ter roubado a Nação. Não está nos livros a razão que me envergonha, nem no passado glorioso do Brasil. Envergonha-me o fato de que a nossa nobreza tenha sido enterrada no passado junto com a moral e a ética deste País. Me custa entender que a água potável não nos chegue nas torneiras, mas abunda água mineral nos palacetes. O café que bebemos aos olhos da cara, mas não falta whiskie à burguesia. Um País cujo Estado atribui competência a si mesmo sobre tudo, mas que prova sua própria incompetência na gestão destes assuntos.
Não meus queridos patrícios, não choro por não reconhecê-los guerreiros, sei o quanto são aguerridos e valorosos, vítimas das circunstâncias, infelizmente. Acreditem, não me orgulha em nada aquilo que estamos vivendo, inundados pelas águas da corrupção, do desrespeito, da falta de vergonha e ética, mas fomos nós que os elegemos e se elegê-los é fácil, grande é a dificuldade para tirá-los de lá. Eu não me espalho em deleite vendo doentes amontoados nas sucatas de hospitais, macas nos corredores, sangue por todos os lados, falta de paciência e despreparo no atendimento, falta de atendimento.
As nossas escolas então, segundo lar dos nossos filhos e que deveriam ser modelos, infelizmente estão sucateadas, sem segurança e deficiente de tudo. Não posso orgulhar-me de nada e portanto desabafo, indignado e ofendido por ser brasileiro e ter que assistir um povo submetido aos mandos e desmandos de quem pouco se importa com ele. Sinto dura a realidade, mas esta missiva me serviu para cuspir fora minhas mágoas antigas e recentes de quem está vendo um lindo País escorrendo pelo ralo enquanto seu povo chora saudosista de respeito.

Texto do escritor brasileiro Tony Casanova . Direitos Autorais reservados ao autor. Proibida a cópia, colagem, reprodução de qualquer natureza ou divulgação em qualquer meio, do todo ou parte dele, sem autorização expressa do autor, sob pena de infração ás Leis Brasileiras e Internacionais de Proteção aos Direitos Autorais.

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