O leite das pedras. [Tony Casanova]


Período de verão, sol a pino e Ananias, com seus 62 anos, continuava na mesma agonia. Acordava todos os dias antes das cinco da manhã e seguia em direção ao açude que ficava a três léguas do local. Uma distância aproximada de dezoito quilômetros dali. Lá ia ele, latas d'água em uma carrocinha puxada por um velho carneiro, o Pumba. Chegando ao açude Ananias enchia as latas com aquela água amarelada semelhante aos seus dentes com uma única diferença, os dentes eram enegrecidos pelo fumo dos cigarros de palha. Carregada as latas, era a vez do pobre pumba conduzir a carrocinha de volta pra casa. Mas pensar que o trabalho acabaria ali é um sonho, ele ainda teria que ir buscar as palmas, uma plantas aquosas e que serviriam de alimentação para Pumba e as velhas vacas magras Chiquinha, Tagarela e Manhosa.
E seguiam Pumba e Ananias para irem carregar a carrocinha com palmas. Feito o carreto Ananias cortava a palma em pequenos pedaços e colocava nos cochos para alimentar os animais. Após isso iria buscar o capim-manteiga que seria triturado para misturar à ração. Dona Ruth, com 49 anos, esposa de Ananias, também tinha tarefas pesadas à cumprir. Logo cedo tratava de alimentar as galinhas jogando restos de comida ou folhagem no chão depois seguia para a cisterna apanhar um pouco de água que sobrara da chuva e que servia para beber, lavar roupas e cozinhar. Ela fazia com a água do jeito que lhe haviam lhe ensinado os técnicos; coava e fervia e para aquela que iria beber e cozinhar, adicionava um pouco de cloro. Feito isto dona Ruth partia pra cozinha, já com a galinha de capoeira morta e depenada para fazer o almoço da família.
Moravam na casa duas meninas, a Daniela, 12 anos e a Cláudia com 14 anos, ambas estavam na escola que ficava ali mesmo no município. Sonhavam em se formar, poder ter um bom trabalho e ajudar os pais. Não era uma vida fácil, forçada ás trivialidades e as mesmices de um município de 2.500 habitantes, principalmente para jovens entrando na adolescência, mas as meninas gostavam. Divertiam-se indo à cachoeira nos finais de semana, sempre acompanhadas de perto pelos pais. A cachoeira ficava a 16 quilômetros dali e eles seguiam em um veículo que a prefeitura colocava à disposição dos moradores para que se divertissem. Haviam também pequenas apresentações de cantores locais e até mesmo de fora, contratados também pela prefeitura.
Uma grande antena parabólica instalada no telhado garantia o acesso da família à programação das Tvs e era mais uma forma de diversão. Gostavam de reunir-se e assistirem juntos, rindo e comentando aquilo que viam. A renda da família vinha das vendas de animais e da aposentadoria de Ananias, era pouco, mas dava para ir levando a vida. O mais incrível era perceber a felicidade nos rostos daquelas pessoas mesmo levando uma vida marcada pelo sofrimento do trabalho duro, da rotina diária pesada e das limitações financeiras. Ver como comemoravam juntos uma pequena conquista, um bem, uma venda ou mesmo um alimento diferente que fora comprado, transformava em algo surpreendente como exemplo de vida.
Não eram ricos, mas tinham felicidade, amor, união e paz na pequena família. Diante das dificuldades, cada um abraçava uma parte do problema e se imbuia em buscar uma solução como fosse possível. Pensavam e articulavam juntos, traçavam metas, elaboram a administração da família em conjunto. Isto era algo maravilhoso. Certo dia Ananias sentou-se à conversar com a esposa e as meninas sobre a ideia de eles não consumirem mais aquela água e passarem a beber água mineral. Todos aprovaram e a partir dai foram as meninas Daniela e Cláudia que fizeram as contas de quanto iria custar por mês e apresentaram as despesas aos pais. Ananias aprovou, Dona Ruth também e todos se abraçaram, felizes com a nova conquista. Algo simples, mas que fora decidido e aprovado em conjunto e que rendeu felicidade a todos. Algo raro, mas que pode-se encontrar na dura vida do homem do campo.

Texto do Escritor brasileiro Tony Casanova – Direitos Autorais reservados ao autor. Proibida a cópia, colagem, reprodução de qualquer espécie ou divulgação em qualquer meio, do todo ou parte dele, sem autorização expressa do autor sob pena de infração ás Leis Brasileiras e Internacionais de Proteção aos Direitos de Propriedade Intelectual. O uso da presente obra sem respeito aos créditos devidos ao autor incorrem em Crime de Plágio.

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