Romance - Amantes numa ilha


Dezembro dos anos 90. Ainda guardo o frescor das lembranças de uma juventude de sonhos. O cenário foi a Ilha de Santa Luzia, em Sergipe. Céu azul, ondas mansas e nuvens alvinhas que nem algodão. O mar calmo, limpo e tão silencioso que só permitia a quebra do silêncio através do diálogo das ondas que morriam na praia. Como de hábito fui a praia sozinho, gostava do ambiente e do clima da praia de Atalaia Nova. No local apenas dois quiosques serviam bebidas e petiscos como cerveja e caranguejos, peixes fritos e camarões. Escolhi o primeiro deles e após pedir uma cerveja, sentei-me para contemplar a paisagem e respirar o delicioso ar puro da região. Era um pequeno pedaço do paraíso. Naquele dia não havia grande movimentação ali e nos quiosques apenas eu e uma garota que lia um livro em uma mesa próxima a minha. A paisagem local era deslumbrante e a garota também. Confesso que fiquei intrigado para saber o título do livro que ela degustava com tanto gosto á minha frente. Aquilo simplesmente me fascinava: alguém jovem, bonita, num local paradisíaco lendo um livro como se ele fosse o caviar para ricos ou o bacalhau para os pobres. Diante da minha curiosidade passei então a fixar discretamente o olhar em direção a capa do livro na tentativa de ler o que estava escrito, mas é claro que não consegui e nem por isso deixei de continuar tentando. Num gesto rápido a garota resolveu olhar á volta e percebeu que eu olhava fixamente a capa do livro e então sorriu e eu correspondi imediatamente. Tomei coragem e apontei para o livro e abri os braços como se perguntasse o título e ela logo virou a capa para mim. Não consegui ler e fiz uma gesticulação mímica imitando um cego e ela rindo acenou para que eu fosse até lá. Eu nem queria! Fui rapidinho! Nos apresentamos e naquele momento percebi que se a paisagem era linda aquela garota era mais. Eu desculpei-me pela curiosidade em saber o título do livro que ela lia e expliquei-lhe que era fascinante encontrar alguém tão jovem e tão linda lendo um livro com tanta vontade naquele local.Ela sorriu e agradeceu-me dizendo-me que aquele era um hábito seu, gostava de ler em locais tranquilos e agradáveis. A partir dali mergulhamos num mar de afinidades e não sentimos o tempo passar enquanto mergulhávamos em conversas gostosas que sempre acabavam em risos e muita alegria.
Incrivelmente nos misturamos á paisagem, passamos a fazer parte dela e o livro, outrora tão solicitado agora descansava servindo de testemunha para nossos diálogos. De repente deu-me um surto e lhe fiz uma pergunta:
- Escuta Maíra, posso te apresentar alguém?
- Claro, quem é?
- Não se preocupe, ela é linda, voce vai gostar.
- Ela? - Notei uma pontinha de tristeza no rostinho dela então antes que a tristeza crescesse a tomei pela mão e levei-a até a margem da praia.
- Sim, ela. E só irei apresentá-la porque ela é tão linda quanto voce.
Ela desconfiada e ligeiramente magoada disse:
- E onde está ela?
- Aqui Maísa, ela é a natureza, sempre linda e harmoniosa. Quero te apresentar a natureza, tão linda quanto voce.
Ela apertou a minha mão e me olhou com tanta ternura que me deixou mudo e sem jeito. Nenhuma palavra foi trocada em segundo intermináveis, apenas olhares. Ergui a mão e toquei seu rosto com a delicadeza de quem toca um cristal frágil e enquanto meus dedos deslizaram em sua nuca nem foi preciso puxar seu rosto para mim ou mesmo abrir os olhos para saber que a praia estava completamente deserta...

...Continua

Texto de Tony Casanova - Direitos Autorais reservados ao autor.
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