A queda de um velho gigante. [Tony Casanova]


Desde a minha infância sempre gostei de cultivar mamoeiros. O mamão é uma fruta suculenta, saborosa e muito apreciada aqui no Nordeste. Como possuo um quintal com área boa para o plantio, sempre procuro uma destas árvores, assim além de saborear os frutos eu também me posso ouvir o canto dos passarinhos que a visitam. Esta é a história do meu último pé de mamão, falecido recentemente, coitado, vítima de falência múltipla dos órgãos. Coisas da idade. Este devia ter uns dois anos, não sei precisamente, mas recordo-me que quando ele brotou eu fiquei muito feliz. Ele ali, vigoroso, verdinho, firme e forte, crescendo a olhos vistos. Uma beleza!
Enfim chegada a adolescência lhe vieram algumas folhas mais robustas e também algumas flores. As primeiras flores de uma mamoeiro caem e as posteriores aguardam a polinização, ou seja, o beijo de uma abelha, passarinho ou inseto para receberem o pólen. Ah! Mas como foi gostoso acompanhar o crescimento dos pequenos frutos como se fossem bebês. A primeira carga foi de frutas grandes e vistosas. Eram muito doces e suculentas, de um aroma forte muito agradável. Até então o mamoeiro estava com aproximadamente 4 metros de altura. Recebia visitas de diversas espécies de pássaros que faziam uma festa beliscando suas flores e frutos. Eu adorava quando chegavam ao clarear do dia e começavam a cantar de forma alegre.
Como a produção de frutos era maior do que eu poderia consumir, quando os mamões estavam maduros eu distribuía entre os vizinhos cheio de orgulho pela beleza das frutas. Já havia quem fizesse fila para receber os “meninos”, bastava que amadurecessem e lá estava a vizinhança esperando. O tempo foi passando e aquele pequeno pé de mamão tornou-se um gigante de mais ou menos 8 metros. Estava já na última carga e eu sabia porque sua copa já estava fina demais para suportar o peso dos frutos. Além disso os mamões diminuíram de tamanho e consequentemente de peso. O menino agora era um ancião e suas forças estavam se esvaindo. Eu acordava cedinho e olhava sua copa fininha, com folhas minguadas e uma aparência triste de fraqueza. Aquilo me cortava o coração.
Uma manhã eu acordei e tomei um enorme susto ao perceber que o gigante declinava para a direita. Um sinal claro de que ele já não estava bem. O vento estava forçando suas raízes que lutavam bravamente fincadas ao chão. Mas ele estava muito velho e sua queda iria representar muitos prejuízos porque do lado que ele pendia estava o muro de uma vizinha. Eu tinha que fazer algo urgentemente para evitar que ele caísse para os lados esquerdo ou direito. Meu urgente se arrastou por dias e cada vez mais a inclinação aumentava e minha agonia também. Eu não podia derrubá-lo sozinho, era muito alto e o risco de um acidente era enorme. Ele era poderia desabar sobre mim e as consequências poderiam ser trágicas. Resolvi que chamaria alguém para ajudar-me com isso, mas não consegui. Uma tarde eu vi a iminência dele cair em minutos porque ventava muito forte e suas raízes não suportariam, então eu empurrei ele com força para um ângulo reto e depois direcionei sua queda para o centro do quintal. Deu certo! Ele desabou de uma vez na direção que empurrei.
Estava no chão um gigante de 8 metros! Sucumbira com suas raízes partidas pelo peso do seu próprio tronco envelhecido. Um grande e útil companheiro que ajudou-me a ouvir os pássaros e comer dos seus frutos saborosos. Chegara seu tempo de despedir-se, mas como todos que partem deixam suas lembranças, ele deixou-me belos filhos que em breve estarão dando seus frutos e me trazendo a alegria dos pássaros ao meu quintal. Sentirei saudades gigante.


Texto do escritor brasileiro Tony Casanova . Direitos Autorais reservados ao autor. Proibida a cópia, colagem, reprodução de qualquer natureza ou divulgação em qualquer meio, do todo ou parte dele, sem autorização expressa do autor, sob pena de infração ás Leis Brasileiras e Internacionais de Proteção aos Direitos Autorais.

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