Conto - O dia em que o palhaço chorou. [Tony Casanova]


Era uma manhã de verão quando a caravana do “Grand Circo Cingapura” chegara a Aracaju. Na verdade de grande só possuía o nome, pois tratava-se de mais um daqueles pequenos circos que percorria o Brasil dos anos 80 buscando divertir a população local e com eles ganhar o sustento do dono e seus “artistas”. Logo eles estavam armando suas instalações em um terreno baldio. Subiram o mastro central, as escoras e num mutirão ergueram a grande lona repleta de remendos. Tudo pronto e foi dado o sinal para que o velho carro de som desfilasse pelas redondezas convidando as famílias para trazerem seus filhos para o espetáculo inaugural em Aracaju. Mata-cachorros a postos, bilheteria pronta, artistas preparados e muitos adultos e crianças chegando, esperaram até o horário marcado para iniciar o espetáculo.
“Respeitável Público”- Bradou o dono e apresentador do circo dirigindo-se aos populares. Falou das atrações como palhaço, trapezistas, carro-maluco, cavalo amestrado, engolidor de fogo e atirador de facas. Todos estavam ansiosos para ver cada uma das atrações. Como em todas as apresentações, o palhaço Tampinha arrancou muitas gargalhadas do público com suas estrepolias e foi ovacionado ao final. Era ele a principal atração do Grand Circo Singapura. Por trás da maquiagem quem vivia o palhaço era Leônidas, Nordestino natural do Ceará, 32 anos e atual marido da trapezista Rosinha, com quem estava a oito anos. Formavam um casal ainda jovem, a moça tinha 30 anos e estava no circo desde que nascera, também no Nordeste, em Alagoas capital de Maceió.
Viviam felizes, mesmo com a vida difícil do circo, não reclamavam e faziam planos de saírem do mundo dos espetáculos e comprarem uma casa no Nordeste e terem os filhos que ainda não tinham. Muito apaixonados, eles aproveitavam o tempo que sobrava para declarem um ao outro seu amor eterno. Leônidas sentia-se orgulhoso pela beleza e qualidades de Rosinha e mais ainda porque ela o escolhera como marido. Como em circo pequeno todo artista faz de tudo, quando não estavam no espetáculo Rosinha seguia para seu treinamento e Leônidas ia cuidar dos animais e outros afazeres.
Durante um destes dias em que estava alimentando os animais, Leônidas sentiu saudades de Rosinha e foi visitá-la no treino. A caminho, arrancou algumas flores que haviam nascidos no terreno, fez um pequeno buquê e seguiu em busca da moça. Como não estava nos trapézios, voltou e resolveu continuar seu trabalho, mas ao passar na tenda do trapezista que também deveria estar treinando, escutou a voz de Rosinha. Parou, escutou e resolveu entrar. Derrubou o maço de flores ao ver a moça nua, fazendo amor com o seu parceiro, também trapezista. Olhar atônito, sem acreditar no que via, ele retirou-se sem ser notado pelos dois que estavam tão envolvidos que sequer perceberam a presença do palhaço.
Leônidas voltou para sua pequena tenda, sentou-se na velha cadeira e chorou. Resolvera abandonar o circo e a vida de palhaço. Faria qualquer coisa para viver, mas abandonaria aquela vida. Queria esquecer por quanto tempo fora palhaço. Refeito, resolveu que naquela noite faria sua última apresentação. Daria ao público sua última encenação como palhaço. Tratou Rosinha como de costume e fez tudo parecer normal. No horário pontual o apresentador abriu o espetáculo e anunciou o incrível palhaço Tampinha. Ele foi até o picadeiro, parou, olhou o público e manchou a maquiagem com seu choro enquanto o público ria, sem entender. Foi só o que fez. Retirou-se e ainda pode contemplar o rosto feliz de Rosinha ao lado do outro trapezista. Dirigiu-se a sua tenda, pegou suas poucas coisas e partiu rumo a uma vida sem palhaçadas.

Texto do escritor brasileiro Tony Casanova . Direitos Autorais reservados ao autor. Proibida a cópia, colagem, reprodução de qualquer natureza ou divulgação em qualquer meio, do todo ou parte dele, sem autorização expressa do autor, sob pena de infração ás Leis Brasileiras e Internacionais de Proteção aos Direitos Autorais.

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